A Unidade das Cinzas
A noite esconde o céu queimado
A luz fez parar o relógio
Que se tinha erguido como fumo
Na esperança de cortar o horizonte
(como um pássaro negro)
Se a luz me devora
Não sei porque fotografo
Para brincar com a memória
Se o meu olho fosse uma lanterna
O abismo desfilaria em cortejo
e os sais de prata iluminariam
a casa, a cela e o túnel
Transformaria as sombras em veias
As mortes em viagens
A janela em tenda
O obturador em labaredas intransponíveis
O filme em árvores de chamas frondosas
a afundarem-se em pântanos luminosos
Os passos em arcos sobre as labaredas da memória
Se o sol me traísse
Iluminar-me-ia pelas costas
e as paredes seriam idiofones
As sombras cavalgariam as dunas da eternidade
E a estrada deter-se-ia
para que uma linha explosiva
se atravessasse entre os pedaços de gelo
e a unidade das cinzas
©Adriano Sobral all rights reserved